Há uns dias atrás alguém da nossa comunidade me perguntou o que pensava eu das mais recentes declarações de Saramago a respeito da Bíblia. Não respondi de imediato. E não respondi, porque até à altura não sentira necessidade de pensar muito sobre o assunto. De facto, apesar de estar consciente de toda a polémica por elas causada, não cheguei a entender o porquê de tanto aparato. É certo que um Prémio Nobel da literatura deveria ser mais cauteloso quando ao apresentar uma visão tão redutora e simplista da Bíblia (e do Deus nela revelado) revela um profundo desconhecimento contextual e literário a respeito da mesma, e ofende todos aqueles que nela têm encontrado conforto e provisão. Mas, de facto, não esperava muito mais de alguém como Saramago. E não o digo com desdém. Simplesmente não espero que um ateu confesso mostre grande apreciação pela nossa “regra de fé”. E não, não li “Caim”, nem me proponho (obviamente) a comentá-lo aqui, mas, pergunto-me a mim mesmo se não haverá uma agenda por detrás da contundência de todas essas afirmações.
Enfim, tudo isto para dizer que há coisas que me chocam muito mais. Ao fim ao cabo, até onde eu posso ver, é apenas alguém que fala daquilo que não sabe. Parece-me a mim bem mais grave quando alguém sabe e não faz. Falo da nossa recorrente falta de consistência entre o conhecimento e a prática da doutrina cristã.
Cristianismo, mais do que regras, é amor. E amor é perdão, tolerância, respeito e aceitação. Quando professamos o amor e não o vivemos, colocamo-lo em descrédito e, infelizmente, são demasiadas as vezes que vemos isto acontecer entre nós. Quão paradoxal é ver cristãos “voltados de costas” para os outros, deixando a amargura e a vingança tomar o lugar do perdão. Quanto mais conhecemos o amor, maior obrigação temos de o viver! O próprio Jesus disse que só pode receber perdão aquele que o estiver pronto a dispensar aos outros.
Se aponto o dedo quando escrevo estas palavras, aponto-o a mim mesmo porque o verdadeiro cristianismo não se centra nos actos dos outros, senão na minha reacção aos tais, mas temo que umas das grandes causas da desilusão do mundo em relação à cristandade (tão bem expressa em Saramago) seja precisamente a falta de vivência do amor, produto da fé, no seu seio. Afinal, a fé sem obras… é morta!
Fico chocado, sinceramente, quando ouço alguns cristãos expressar o desejo de ver pessoas como Saramago no inferno reconhecendo o quanto estão erradas. Será que não entendemos o contra-senso dessas afirmações?
Não fomos chamados para condenar mas para testemunhar… amando!
“Se fossem realmente cegos, não teriam culpa, respondeu Jesus. Mas a vossa culpa mantém-se, pois afirmam que podem ver.“
Evangelho de João 9.41
Outubro 24, 2009 ás 11:27 pm |
muito bem…
Outubro 25, 2009 ás 2:00 am |
Mano
Muito bom o texto, e realmente a imagem que nós cristãos, passamos, é que somos os donos da verdade… Mas o conhecimento da verdade, sem a aplica-la é pior que o não conhecimento!
Vamos trabalhar para fazer a diferença em Portugal, não por palavras ma com gestos. Gestos esses que contrariam a indiferença, praticada pela maior parte das pessoas, quer crentes ou descrentes.
Abraços
Alexandre Izumi
Outubro 25, 2009 ás 9:37 pm |
Gostei imenso do que disseste pois falaste somente a verdade e nada mais que a verdade. beijoes para voçes